segunda-feira, 26 de março de 2018

Orgulho



O orgulho me deu tudo que tenho e também me tirou tudo que perdi.  Qual é o saldo de ser capaz de dizer sim e não para si mesmo?

terça-feira, 20 de março de 2018

Maybe in black.




Maybe in other language I can tell to you what a wish
Maybe some day I can say.
But what I would say?
What do you would hear? What do you hear?
It so silent in here, it so black out there.
The horizons don't show me the beuaty.
Your face don't see me. Its a lonely company.
You make my emptyness emptier
And I turn myself more bitter. Its so black.
If I could say, what I would say? What you would say?
Your on sky, but not my black sky. Why?

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Quem não tem medo de ser feliz?



A felicidade que talvez não cale, toda vontade que talvez desague no rio do fim de mim.
 Todo fato de desacato do afeto falho que nos faz retalho, todo luto que nos faz viver ainda mais.
 E quanto a toda graça, prévia da desgraça, desgraça prévia de um futuro riso.
 Tão pouca falta de fato que de perto revela espaço, folga sem embaraço, um pouco vazio do outro em si.
 Mas quem é que nunca foi feliz. De nós dois só quem não nos era, de nós só quem já não somos mais.
 Um fardo que nos carrega, que nos eleva e solta em  queda livre, sem correntes, sem para-quedas, sem parar a queda, sem quedas para parar.
 Louca limpeza, saudável tristeza, o mais ralo pulsar.
 E como dizer que da própria infecção que tornas-te curar-se-á com sua morte, quando o que adoenta é minha própria história, quando se encuba no meu futuro e neblina minha vida.
 Só não se pragueja a maldição, que dita redobra, que em silêncio consome e que cega revela. Ah a paixão!
 E tendo dito isso que ninguém sabe, quem não tem medo de ser feliz? 

domingo, 22 de janeiro de 2017

O Roubo



A que me sucede o roubo
de minha própria voz.
Dentro do ventre resguarda-se
o tesouro mais valioso, que corrói
meu próprio âmago
e vaza por entre os buracos de minha falsa alma
em um misto de podridão e preciosidade
escorrendo-se até o chão e fertilizando
a terra que a própria vida a de matar.
É sobre a negação de algo
que não irá revelar nem mesmo a si,
é sobre as palavras que juntas negam as outras,
sobre o que sucedeu a minha própria voz,
uma permissão que rouba,
Eis que não quero falar de possibilidades,
nem usar a palavra,
ao usá-la rouba-se a poética
e tomo como castigo a própria existência do que é dito.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Caos.




Eu me amo. Uma parte eu digo. Em mim algo me ama, em mim algo se ama, pois em mim também sou eu. Em mim algo ama como amasse algo de fora, ama querendo a posse, ama querendo a proximidade, ama querendo colocar em si o que ama, quer colocar o si próprio dentro de si, ama como se quisesse ser o que ama, mas não pode por que já é, esse amor quer tornar-se. O amor em mim, sobre mim e para mim é tão louco que ele deseja tudo o que já tem, tudo o que já é, é como se quisesse ter o seu reflexo dentro de si, como se colidisse com toda a força com o espelho na tentativa de colocar-se dentro de si, de ocupar o espaço que já ocupa, esse amor é frustrado por sua própria existência, o que ele é não permite que ele seja, por que o que ele quer também faz parte do que ele é.
Existe também algo em mim que não me ama, nem um pouco, nem por um momento, nem jamais amará, nem nunca amou. Uma parte que não me odeia, mas que me ignora, não é ódio, é não-amor. Uma parte de mim que não me ama, que não se ama, pois em mim também sou eu. Um não-amor espectral, que transpassa a si com um sentimento de ignorância, que não se conhece, mas que não justifica seu não-amor em sua ignorância como autoconsciência e sim na sua ignorância de desinteresse, como se tivesse cruzado consigo próprio como se cruza com qualquer uma das milhares de pessoas que há de se cruzar durante toda a vida, esse não-amor quando sonha não reconhece a personagem que ocupa o seu reflexo, encontra em sua imagem um rosto embaçado e que mesmo nítido pensaria ser o espelho um lugar a qual não iria adentrar pois alguém o impedia de passar pela moldura. Um não-amor que existe para não amar a si, que existe para que se permita fazer as coisas que somente não se amando é possível.
Parece uma dicotomia, uma oposição, um antagonismo, mas não. Esses amores e não-amores, não são de fato partes e sim tempos, períodos e contraditórios dizer também fases - fases que são partes de tempo - não como o Ying e Yang que se misturam e se completam e se equilibram, nunca, em nenhuma hipótese, a regra deles é o caos, não há em sua atuação um que em cena possa-se chamar de protagonista ou que não se possa chamar os dois ou ao que se escolher como protagonista, tudo pode, tudo deve, tudo não, um caos entre elementos que se consideram distantes mas que são tão a mesma coisa que já também não podem ser o que são, mas podem porque não há regra, só o caos, o caos é a regra.
Caso o não-amor queira amar o amor que ama a si ele não estará se contradizendo, e se o amor que ama a si não quiser amar o não-amor e torna-se por tanto ele, também pode. Há-se a ideia de que a ordem permite que as coisas sejam o que elas devem ser e que o caos não possibilita que nada ocorra ou seja. Que falha grotesca, o Deus negro africano, o jesus, o homem com cabeça de elefante, o dragão, o homem dos raios que come seu pai, todos existem porque o caos existe, porque ele permite, o caos não determina impossibilidade, ele determina que todas elas possam existir, ele permite que o universo seja uma ilusão ou um bola de gude de outro universo, ele permite. Porque não permitiria ele que meus tempos não fossem um ao outro se o que quisessem, que metamorfoseassem-se em todos os outros tempos que ainda não foram ditos.
Isso é sobre uma história de amor. Resumida em poucas palavras que dão sentido a todas as outras que existem e não foram ditas. Quisera eu usar a palavra Sol para descrever o não-amor, também me faria compreendido, ou usar Poeira para substituir o amor que me ama, também poderia.
As palavras tão pouco densas, tão pouco leves pretendem dizer que eles se cruzaram, o não-amor e o amor-a-si e geraram filhos, semelhantes alguns: não-amor-a-si; amor-a-si-não; si-não-há-amor; alguns parecidos e com características próprias: a-se-não-fosse-o-amor; amar-a-ti; há-amor; e desse momento do cruzamento, mesmo após darem-se luzes, seguiram indiferente, um pouco parecendo que não se conheciam, um pouco parecendo que se conheciam de mais. Fazendo com que tanto parecessem qualquer um dos poucos que diz-se terem parecido fosse descartada a necessidade de comunicação - algumas coisas devem ser caladas por desconhecimento outras pelo conhecimento -.
Isso, essa constatação da existência desses amantes e não-amantes, tempos, períodos, fases, palavras, ordem e caos é para dizer que o meu amor não correspondido é o meu amor próprio.

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Nulidade.


Só poderia ser homicídio.


Depois de perde-te
já não sou o mesmo,
toda minha força contra mim
anula o suicídio,
porque sem você não sou o mesmo,
o que mato em mim é outra pessoa
não sou mais eu.

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Dias sombrios.




Para os dias sombrios é sempre necessário que se guarde um pouco de orgulho.
A sombra que nos deprime nunca pode ser maior que a luz que nos guia.
A medida das coisas sempre deve nos favorecer.
Para cada lágrima dois sorrisos, para cada mentira duas verdades.
Para cada paixão perdida no mundo basta o meu amor sincero por você!

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

A palavra riscada.



Digo que vi uma palavra riscada no livro, digo que vi.
Digo que vi uma palavra riscada.
Mas o que queria dizer a palavra. Riscada.
Dizer uma palavra arriscada. Deitada sobre o berço. A palavra.
Arrisco dizer rabiscada. Ditado Impopular.
Porque vi, logo á princípio como princípio ser riscada.
Tão falsa quanto não dita, palavra falida, fatal.
Tão vista quanto riscada que a palavra já não dizia,
seu risco é que transportava o significado.
O risco é quem denunciava que a palavra não queria ser dita,
só vista pra se contradizer.
E logo na primeira página, como uma água viva no mar.
Tão mescla quanto nós na vida,
tão funda quanto a pressão do risco.
A palavra estava presa, presa na cara, presa em quem não diz,
a palavra afinal veio depois do risco,
o risco e o rabisco,
era ela quem o embalava.
O risco é quem é superfície, a  jaula vazia.
A palavra riscada diz mais que somente a palavra,
o risco diz mais por justamente não querer dizer.

Quem fica?

 

  Na sua bagagem um pedaço de nossa vida, em nós um pouco da sua pele. Na hora da partida o desencontro mais fértil, o verdadeiro amor surgiu com a ida.
    Mas supera ainda a expectativa, uma palavra que ainda não existe da significado a ânsia de te encontrar, novamente? Um dia, um dia sequer, já nos vimos?
    Era espreita! Na procura de dois encontrava-se a vida procurando. A saudade que mais se assemelha a vontade revela o não consumido, dentro de ti estava a nós que nós queríamos, perder foi o que trouxe a possibilidade de ter, o vento que passa ao lado da no seco da alma a razão de querer a brisa fugida.
    Leve mais, leve demais que chega a nos enfincar no subsolo da existência, o adeus que tão breve chega a durar para sempre,  a verdade piloto que nos guia para um infinito além, para além dos além-mundos, um piloto que nos deixa aqui, para sempre, para nunca mais.
    O que queríamos dizer ficou como não dito, palavras poucas que agora dizer-se-ão para dentro, para o profundo inaudível, o único lugar que você ainda habita. Um conjunto de memórias não vividas, um montante de paradoxos e analogias feitas e não feitas, a partida termina em nós tudo o que ela mesmo criou, fez do seu próprio fim também o fim do você que havia em nós. O que agora resta é fuligem da combustão conceitual, o carvão que se obtém quando se queima as melhores possibilidades. O diamante negro que não intencionalmente se assemelha a maldade.
    O mais duro e difícil de se aceitar é que não tenha nos dito a que momento marcou-se dentro de ti a data, talvez tão rápida quanto barata o preço para se ficar. E o que resta ainda que eu deva dizer sem pressa, em toda essa despedida, mal feita e deprimida, nós é quem seguimos para o fundo e você ficou para trás.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Amor de mar.



Perdido amor alimento por você
mas tal com esse amor também me perco.

Você é imensidão.

Tão longas distâncias dentro de nós que já não nos encontramos.
Alimento sua falta como castigo, pois não ter-te é morrer de necessidades básicas

Você é água.

E porque não te compro, ó santidade.
Poque sou pecado, sou miséria, sou pobre e você não é mercadoria.
Mas a fome em nós só serve de vazio
e dele também estamos cheios.

Contraditório dizer também que te amo,
uma vez que já havia dito que não sei amar, apenas desejo.
E desejo francamente, tão loucamente, dizer-te: lhe avisei.

Mas a culpa é desejo meu, e o que me pertence dou a quem quiser.
Preciso que assuma, uma vez, que o erro em nós está em você,
uma vez que me ultrapassa em qualidades, é só você quem sobra
todo o resto de nosso amor lhe pertence.

Dos pecados sou a preguiça e você o orgulho.
Tal mergulho raso em mim que lhe quebro a cabeça.
Você não merece se cansar de minha mediocridade, a minha sinceridade
lhe faz mal, não por inocência, mas por expectativa,
já lhe disse: sou preguiça.

Mas lhe digo, ó perdido amor - talvez dos que tive o mais belo que já neguei -
em minha pouca segurança lhe protejo.
Sou faca de dois gumes.

Você é amiga.

Lhe protejo de mim.

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Batismo



Perdi na palavra o que havia no seio,
receio, tão fraca vontade de ter-te
torna tão fraca a vontade de mim,

E só não sinto,
tanto que até me culpo,
por interesse maior me julgo
e absolvido estou.

Cantando e gritando eu digo,
não sou seu inimigo, espere um pouco mais.

Mas o que quero dizer e não posso
é que não te amo tanto, tanto não amo que até me espanto,
como pode alguém não te amar?

A verdade meu querido, é que te transpasso
no compasso do seu show, fecho os olhos e durmo.
Sou cão que foge, redomoinho que suga.

Sou permuta.

Na margem de lucro respeito seu déficit
e administro nossa falência como consequência da sua deficiência,
carência de vitaminas, lhe falta amor próprio.

e como posso doar-te sangue, quando precisa e não merece
amante...
pedinte...
em realidade de hemodiálise.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Somente o necessário.



Geralmente pensa-se que as pessoas que tentam compreender o mundo tornam-se apáticas a ele, mas acho que na verdade as que o tentam compreender tem nisso o melhor de si. São pessoas cuidadosas que veem o mundo como um guarda-roupas, onde alguns são peças novas e não deve-se usar roupas novas constantemente, alguns são pijama velho para a hora de dormir, tem a camisa pra qualquer ocasião, tem o sapato que te leva em qualquer lugar, tem os cabides, tem as gravatas apertadas, tem o sutiã (amigo do peito), temos aquela meia furada que sempre serve, tem roupa pra doação, e tem roupa que não serve nem pra doar, tem as traças, as aranhas, o mofo, o bolor, a fedentina, a umidade, e para isso a naftalina, as vezes tem etiqueta, tem gaveta rasa, tem gaveta funda, algumas coisas organizadas por tamanho, outras por cores, outras em uma bagunça memorável que torna tudo bem arrumado, tem perfume, tem calça curta, tem pano pra manga, tem manga que não da em pé, longa e curta, tem as cuecas brancas que não devem causar graça (cuecas nunca o devem), tem sempre um caixa com algo importante, tem nossa identidade, se for grande pode haver grandes malas vazias, se for pequeno pode dar a impressão de fartura.
As pessoas que tentam compreender o mundo só estão preocupadas em ter exatamente aquilo que se deve ter, tomando muito cuidado pra não jogar nada valioso fora, evitando comprar em excesso e mantendo só o necessário.  

segunda-feira, 6 de junho de 2016

A queda.

 

    Foram inúmeros e incontáveis laudos, alguns significativos, alguns interpretativos, eu mesmo fiz vários deles, mas agora desconsidero todos.
    Só aceito a felicidade como causa de tal infelicidade, só aceito o excesso de risos para justificar essa tragédia, absolutamente nada é mais válido.
    Você como sempre causou, como sempre gostou de causar, espanto em alguns, tristeza em outros, inveja nos que te amavam, raiva nos que te desejavam, remorso e negligência em mim. Mas como estou sempre um pouco ocupado de mais para os sentimentos, mastiguei rapidamente todos eles e engoli esperando  um refluxo devastador e interno, um abalo, uma brisa leve em minhas costa quando estou em pé na beira do abismo. Era lá que você estava? Na beira do abismo? Houve também brisa leve em suas costas? Não aceito! Foi felicidade! E se fosse um abismo, era um abismo feliz, uma piscina profunda de bolinhas coloridas.
    Desconheço outro caso a que possa eu dar o mesmo nome, morte por felicidade deve ser algo inédito no mundo, ou pelo menos algo bem restrito destinado somente a pessoas boas, onde o plano de fundo da loucura seja a moralidade, somente para quem consiga transcender entre interno e externo, tornando-se em existência alguém cuja essência esteja exposta a primeira vista, uma essência atemporal, somente espacial, de forma que pessoas racionais como eu tenham dificuldade de entender, por isso inválido meus próprios laudos, sua  causa mortis, a felicidade, não foi dada por mim, foi concebida em experiência, por senso comum, por observação, é relato vivo, incapaz de ser problematizado com eficiência.
    Ao fim da causa resta sim algumas considerações, não sobre a causa, mais sobre o estilo que tanto era importante para você, não fosse minha distância nos últimos anos saberia dizer se finalmente você havia feito algo de caso pensado, e se fosse apostar diria que sim. Entregou a pior de todas as verdades no dia da mentira, e no final o dia da mentira passava mas a verdade entregue não, uma verdade não passageira, uma verdade piloto, dessas que levam de todos uma quantidade infinita de possibilidades. Também diria aos que acreditam em espirito que você não suportava mas a ideia de não visitar aquela bela torre em Paris, inaugurou-se no pós-vida junto a ela,  - espíritos viajam rápido? -. E sobre o último drink, alguns me disseram que você havia tomado algo que preserva a beleza, tentou ao menos conservar-se por dentro? Talvez tenha tentado esticar as rugas de felicidade, mas será que valeu a pena, seus métodos foram sempre duvidosos para mim, não sou bom em aceitar somente em compreender.
    Existiu um único pecado em você, a gula, nunca uma gula mesquinha pois sempre houve fartura em tudo, uma gula que transformava-nos em alimento e alimentado, a mão de midas transformava tudo em ouro, a sua mão a tudo multiplicava, tornava ambígua todas as coisas, multiplicava os sentidos e as formas. A sua gula o fez consumir um pouco da nossa felicidade, um pouco da nossa vontade, e todo seu ser, a sua gula só rejeitava tristeza, te era tóxico, te envenenou.
Disse: Você consumiu a felicidade de toda uma vida em apenas alguns anos, morreu de felicidade, estagnado em beleza.

   Nem mil sóis foram suficiente para derreter as assas de meu Ícaro.. caiu, mas caiu pra cima. Ele se foi.


segunda-feira, 25 de abril de 2016

eu.

   

     É como um jogo, um jogo que já perco, um jogo que já quero perder. Ser está para mim muito além de existir, é como uma função mecânica, é fazer aquilo que se programou mas não encontrar nunca o resultado previsto.
     Fico me perguntando: "será que sou somente isso?". Devo dizer que de fato nunca me perguntei o que as pessoas são, sempre tive muita facilidade em perceber o superficial nelas, e de fato o superficial nas pessoas é o que se dá pra saber. Sobre as outras pessoas só me pergunto se há algo mais além do que me parecem. Elas me parecem um tabuleiro de xadrez montado, onde todas as peças trabalham exatamente de acordo com o movimento que previ para elas.
     E percebo que é apenas a mesma função mecânica que há em mim. Eu sou igual as outras pessoas, porém sempre me vejo em desvantagem, por saber os movimentos futuros. A vida passa para mim como um filme que já havia assistido.

Ignorância



Ignorei já de cara dois amores, o meu e o seu.
E ignorar amor parece fácil, mas não é,
O primeiro passo foi ignorar nossa amizade,
e era isso que nosso amor queria, ele cobra até a alma,
ele cobra até a vida do amante, o amor é uma cobra.
Ignorei nossa amizade facilmente, assim como se ignora
um filhote de gato na beira da estrada.
Depois ignorei a você, e isso foi como ignorar a morte
de um pai, ou mãe.
Mais antes de ignorar qualquer coisa, o princípio da ignorância
foi ignorar a mim mesmo, e isso foi apenas como morrer.
Seu anjo da guarda é na verdade um zumbi.
Ignorei você dizendo repentinamente que me amava
assim como se ignora o som da trombeta do apocalipse.
Ignorei o fato de ter o dobro de chances de cruzar com seu rosto
nas ruas, da mesma forma como ignoro minhas doenças degenerativas.
Também ignorei nunca mais ver seu cabelo molhado, ou sentir seu cheiro
de ópio, ou rir do seu riso... assim como se ignora a fome e a sede.
Ignorei a impossibilidade de te defender da vida e de enxugar suas lágrimas,
assim como se ignora uma ferroada no céu-da-boca.
Ignorei todo o tempo perdido, assim como se ignora todo tempo perdido.
Ignorei seus olhares, fechando meus olhos para o olhar de qualquer alguém.
Ignorei todas as chances, assim como se ignora a oferta de uma coroa real.
Toda a história que não tivemos foi pautada em ignorância,
toda a história que um dia eu quis foi também ignorância, por um momento pensar que você
pudesse ser meu ou que poderia-lhe fazer meu homem foi meu mais alto ato de desinteligência.
Eu, em toda minha pobreza, suscitar ser proprietário de alguém, foi ignorar meu amado
desapego.
O mundo já diz: ninguém é de ninguém. E eu digo mais: nós nem nos pertencemos.
Todo amor;; todo esse amor; é um conjunto de ignorância e ignorâncias.





terça-feira, 12 de janeiro de 2016

O mal que em mim derrete.


O que resta de todo mal que a mim chega são apenas as folhas no ralo. Um bom banho verde me faz levantar a cabeça, pois meu corpo sempre está em pé e meu peito sempre está aberto. Que passem más linguás e mal dizeres, que passem más vontades e intenções perigosas, que passem frutas e podres pessoas. É no ralo que terminam, escoem pelo corpo e pela vida, escoem como esgoto mal resolvido, escoem como culpa que não me pertence, escoem das minhas lágrimas, lágrimas de pena. E também todo mal se derrete, porque o mal é um lixo disfarçado, e perto de pessoas que são seu próprio sol, ele não se mantem em si e toca todos que estiverem em seu percurso, que por fim, também termina no ralo. É ralo! No ralo! É ralo! É ralo de sabedoria, é ralo de profundidade, é ralo de bem querer, é ralo de bem fazer, é ralo de prosperidade, é ralo de idéias e ideias, é ralo de boas vontades, no ralo termina aquilo que só passa pelo seu próprio buraco escuro e fétido! Escolherei sempre manter-me em bons banhos verdes e em minha rasa compreensão das coisas. Não sou o homem de aço, mais sou filho do pai do ferro.

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Pornográfado.



Fui gravado em porno. Agora sou sujo e desejável, um pouco imoral e viciante. Minha grafia é vulgar e diz aquilo que não se deve ver, só as vezes, sozinho e sem ninguém. Minha palavra é seio e meu verbo é pênis,direi coisas que ninguém pode ouvir, não sob a luz do dia, nem tomando café da manha com os pais. Leia-me em baixo do chuveiro ou sob o cobertor, ouça-me em um motel ou prédio em construção e me veja através de uma camada grossa de couro. Sou todo pornografia, mercado negro do desejo insaciável de fazer o que não aprovam. Seco, sem lubrificação, introdução dolorosa e masoquista, gostosa e apertada de um objeto fálico no meio do seu conforto. Sou aborto masculino, azedo, branco e viscoso. De ideias fezes, projeto minha cabeça ânus.