quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Metafora psicologica.

Veja se não é uma descrição fiel de um relacionamento amoroso comtemporaneo.

EROS E PSIQUÊ

Registrado por Apuleio em “O asno de ouro” em meados do século II D.C.

Psiquê era a mais nova de três filhas de um rei de Mileto e era extremamente bela. Sua beleza era tanta que pessoas de várias regiões iam admirá-la, assombrados, rendendo-lhe homenagens que só eram devidas à própria Afrodite[1].

Profundamente ofendida e enciumada, Afrodite enviou seu filho, Eros[2], para fazê-la apaixonar-se pelo homem mais feio e vil de toda a terra. Porém, ao ver sua beleza, Eros apaixonou-se profundamente.

O pai de Psiquê, suspeitando que, inadvertidamente, havia ofendido os deuses, resolveu consultar o oráculo de Apolo[3], pois suas outras filhas encontraram maridos e, no entanto, Psiquê permanecia sozinha. Através desse oráculo, o próprio Eros ordenou ao rei que enviasse sua filha ao topo de uma solitária montanha, onde seria desposada por uma terrível serpente. A jovem aterrorizada foi levada ao pé do monte e abandonada por seu pesarosos parentes e amigos. Conformada com seu destino, Psiquê foi tomada por um profundo sono, sendo, então, conduzida pela brisa gentil de Zéfiro[4] a um lindo vale.

Quando acordou, caminhou por entre as flores, até chegar a um castelo magnífico. Notou que lá deveria ser a morada de um deus, tal a perfeição que podia ver em cada um dos seus detalhes. Tomando coragem, entrou no deslumbrante palácio, onde todos os seus desejos foram satisfeitos por ajudantes invisíveis, dos quais só podia ouvir a voz.

Chegando a escuridão, foi conduzida pelos criados a um quarto de dormir. Certa de ali encontraria finalmente o seu terrível esposo, começou a tremer quando sentiu que alguém entrara no quarto. No entanto, uma voz maravilhosa a acalmou. Logo em seguida, sentiu mãos humanas acariciarem seu corpo. A esse amante misterioso, ela se entregou. Quando acordou, já havia chegado o dia e seu amante havia desaparecido. Porém essa mesma cena se repetiu por diversas noites.

Enquanto isso, suas irmãs continuavam a sua procura, mas seu esposo misterioso a alertou para não responder aos seus chamados. Psiquê sentindo-se solitária em seu castelo-prisão, implorava ao seu amante para deixá-la ver suas irmãs. Finalmente, ele aceitou, mas impôs a condição que, não importando o que suas irmãs dissessem, ela nunca tentaria conhecer sua verdadeira identidade.

Quando suas irmãs entraram no castelo e viram aquela abundância de beleza e maravilhas, foram tomadas de inveja. Notando que o esposo de Psiquê nunca aparecia, perguntaram maliciosamente sobre sua identidade. Embora advertida por seu esposo, Psiquê viu a dúvida e a curiosidade tomarem conta de seu ser, aguçadas pelos comentários de suas irmãs.

Seu esposo alertou-a que suas irmãs estavam tentando fazer com que ela olhasse seu rosto, mas se assim ela fizesse, ela nunca mais o veria novamente. Além disso, ele contou-lhe que ela estava grávida e se ela conseguisse manter o segredo ele seria divino, porém se ela falhasse, ele seria mortal.

Ao receber novamente suas irmãs, Psiquê contou-lhes que estava grávida, e que sua criança seria de origem divina. Suas irmãs ficaram ainda mais enciumadas com sua situação, pois além de todas aquelas riquezas, ela era a esposa de um lindo deus. Assim, trataram de convencer a jovem a olhar a identidade do esposo, pois se ele estava escondendo seu rosto era porque havia algo de errado com ele. Ele realmente deveria ser uma horrível serpente e não um deus maravilhoso.

Assustada com o que suas irmãs disseram, escondeu uma faca e uma lâmpada próximo a sua cama, decidida a conhecer a identidade de seu marido, e se ele fosse realmente um monstro terrível, matá-lo. Ela havia esquecido dos avisos de seu amante, de não dar ouvidos a suas irmãs.

À noite, quando Eros descansava ao seu lado, Psiquê tomou coragem e aproximou a lâmpada do rosto de seu marido, esperando ver uma horrenda criatura. Para sua surpresa, o que viu, porém, deixou-a maravilhada. Um jovem de extrema beleza estava repousando com tamanha quietude e doçura que ela pensou em tirar a própria vida por haver dele duvidado.

Enfeitiçada por sua beleza, demorou-se admirando o deus alado. Não percebeu que havia inclinado de tal maneira a lâmpada que uma gota de óleo quente caiu sobre o ombro direito de Eros, acordando-o.

Eros olhou-a assustado, e voou pela janela do quarto, dizendo: - "Tola Psiquê! É assim que retribuis meu amor? Depois de haver desobedecido as ordens de minha mãe e te tornado minha esposa, tu me julgavas um monstro e estavas disposta a cortar minha cabeça? Vai. Volta para junto de tuas irmãs, cujos conselhos pareces preferir aos meus. Não lhe imponho outro castigo, além de deixar-te para sempre. O amor não pode conviver com a suspeita.".

Tendo perdido Eros, imersa numa tristeza sem fim, a desolada e abandonada Psiquê decide dar cabo da própria vida, jogando-se num rio. Entretanto, o rio devolve-a para a margem. Cambaleante e sem rumo certo, ela encontra Pan[5]. Este lhe aconselha procurar Eros. Ainda sem saber o que fazer, Psiquê vai à procura de Afrodite. Ao deparar-se com a deusa, pede-lhe ajuda para recuperar o amor de Eros. Sem piedade, Afrodite derrama sobre Psiquê todos os tipos de impropérios e ofensas, ordenando que uma de suas escravas, Hábito, a agarre pelos cabelos e a torture. Entregue a duas outras escravas, Inquietação e Tristeza, Psiquê é mais uma vez torturada. Em seguida, Afrodite declara-lhe que para recuperar Eros terá que superar algumas provas. Certa de que Psiquê não conseguirá realizar as provas propostas, Afrodite ordena-lhe separar espécie por espécie uma infinidade de grãos previamente misturados: trigo, cevada, aveia, grão-de-bico, sementes de papoula, lentilhas etc. Todo o trabalho deveria ser feito numa só noite. Psiquê, consciente da impossibilidade de realizar tal tarefa, nem tenta.

Contudo, notando o desalento da jovem, as formigas se reúnem em um verdadeiro pelotão de trabalho e realizam a tarefa proposta. No dia seguinte, Afrodite surpreende-se com o cumprimento da prova. Mas acredita ter sido Eros o responsável. A segunda tarefa proposta era a de colher a lã dourada que crescia no dorso de selvagens e indomáveis carneiros. Ciente da ferocidade e da letal mordida dos tais carneiros, a desesperada Psiquê nem tenta e, mais uma vez, joga-se no rio para morrer. Desta vez é salva por um caniço que lhe pede para não poluir o seu rio. Este também revela a Psiquê a razão da fúria dos carneiros, o Sol. Durante o dia, eles se mantinham em guarda e ninguém podia se aproximar, pois suas mordidas eram letais. Mas, à noite, quando eles permaneciam mansos, deixavam, ao andar, tufos de lã presos às árvores onde, apenas sacudindo-as, Psiquê poderia recolhê-los. Mais uma vez Afrodite creditou ao filho os méritos pela realização da tarefa.

O terceiro trabalho consistia em buscar um pouco da água de uma fonte situada no alto de uma montanha. A tal fonte era protegida por dois dragões. Dois rios do Hades[6], Cocito e Estige, nasciam dessa fonte. Psiquê, mais uma vez sentindo-se incapaz de cumprir a tarefa, nem a iniciou. Entretanto, a águia de Zeus[7], grata por Eros ter-lhe auxiliado no rapto de Ganimedes[8], decide ajudar Psiquê e, voando veloz sem se deixar atingir pelos afiados dentes dos dragões, apanha a água da fonte no jarro de cristal que Psiquê lhe dera para tal fim. De posse da água, a jovem dirige-se à Afrodite, que dessa vez credita o mérito da empreitada à bruxaria e à magia. A última tarefa é deveras estranha. Psiquê deve ir até o Hades e pedir a Perséfone[9] um pouco de sua imortal beleza. Afrodite lhe havia dado uma caixinha na qual Perséfone deveria depositá-la. Certa da impossibilidade de realizar tal tarefa, Psiquê dirige-se para uma torre a fim de atirar-se de lá. Imaginou que morrendo poderia chegar mais rapidamente ao Hades. A certeza de que Afrodite, mais do que tudo, gostaria de vê-la morta, era o que não lhe faltava. Contudo, a torre demove-a de tal propósito e a aconselha a respeito da melhor maneira de superar mais essa tarefa. Psiquê deveria dirigir-se até o cabo Tênaro no Peloponésio, e onde seguiria para o Palácio de Tânatos[10]. Devia levar consigo, além da caixinha, dois óbolos na boca e um bolo de cevada e mel em cada uma de suas mãos. Os óbolos seriam para pagar Caronte[11], na ida e na volta; os bolos seriam para aplacar a fome e a fúria de Cérbero, o cão que vigiava a entrada do Hades, na ida e na volta. A torre adverte-a também a respeito de um carroceiro coxo que conduz um burro, também coxo, e carrega lenha. Ele pediria a Psiquê que apanhasse algumas lenhas que haviam caído de sua carroça. Psiquê não deveria lhe dar ouvidos e seguir em frente. Durante a travessia o Estige[12], um velho afogando-se lhe pediria socorro estendendo-lhe as mãos. Também não deveria atendê-lo. Mulheres tecendo solicitariam sua ajuda e, mais uma vez, não devia ceder e muito menos ajuda-las. Durante o encontro com Perséfone, esta lhe convidaria a sentar-se e lhe ofereceria um jantar. Psiquê se sentaria no chão e comeria apenas um pedaço de pão preto. Por fim, e o mais importante, Psiquê jamais deveria abrir a caixinha que trazia consigo. Tudo foi feito como o combinado, nenhuma tentação tirou a moça de seu principal objetivo. Mas, como a pior e mais grave tentação vem de dentro, Psiquê deixa-se seduzir pela última e insuspeita armadilha de Afrodite: abre a caixinha. Imagindando que com um pouco de beleza imortal, Eros não resistiria à sua visão e voltaria para ela. Entretanto, ao abrir a caixinha, Psiquê cai num profundo sono letárgico. Enquanto isso, deitado em berço esplêndido, e já recuperado de seu ferimento no ombro, Eros acompanha à distância o esforço de sua amada em tê-lo de volta. Ao perceber que a amada havia caído na derradeira armadilha de sua mãe, sai em seu socorro. Chegando onde Psiquê se encontra, devolve o sono letárgico para a caixinha e, beijando-a carinhosamente, solicita a Zeus que advogue sua causa junto à Afrodite. O deus dos deuses aceita o pedido de Eros. Psiquê é, então, levada ao Olimpo onde, após beber a bebida dos deuses, a ambrosia, torna-se - como o seu Eros - imortal. Os dois se casam e têm uma filha a qual denominam Volúpia ou Prazer.

BRANDÃO, J. Mitologia grega. Petrópolis: Vozes, 1988.


[1] Deusa da beleza e da sexualidade.

[2] Deus do amor, comumente representado como um anjo. Conhecido nos dias de hoje como Cupido.

[3] Deus da beleza, magnificência, perfeição, razão, vidente, entre outras atribuições.

[4] Entidade do vento no mundo grego.

[5] Deus dos bosques, rebanhos e animais domésticos.

[6] Deus da morte, senhor do submundo; O reino do submundo propriamente dito.

[7] Deus pai da mitologia grega, senhor do Olimpo (a morada dos deuses).

[8] Um príncipe de Tróia, por quem Zeus se apaixonou.

[9] Deusa da agricultura, esposa-cárcere de Hades.

[10] Entidade arauto da morte, criatura vil com entranhas de bronze.

[11] O Barqueiro que conduz as almas dos mortos para Hades. Era costume grego colocar duas moedas na boca dos mortos para que pudessem pagar o Caronte.

[12] Rio que conduz ao Hades.

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